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sábado, 20 de novembro de 2010

AS 7 MARAVILHAS DO ESTADO DO PARA - ELEJA MOSQUEIRO

E-MAIL: PORTAL ORM
http://www.orm.com.br/7maravilhas/

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A PESCA ARTESANAL NO POVOADO MOSQUEIRO

A PESCA ARTESANAL NO POVOADO MOSQUEIRO: O TRABALHO COMO
MEDIAÇÃO DA RELAÇÃO HOMEM/NATUREZA.
Shauane Itainhara Freire Nunes
Mestranda em Geografia (PPGG/UFPB)
shauanecaju@yahoo.com.br

INTRODUÇÃO
Neste artigo temos como objetivo, refletir a partir da pesca artesanal como se estabelece a
relação homem/natureza e quais as implicações dessa para a permanência da comunidade
pesqueira que se situa no Povoado Mosqueiro- Aracaju/SE. A discussão deste texto faz
parte de uma pesquisa maior de mestrado em andamento, intitulada As alterações
sócio-espaciais no povoado Mosqueiro: Um estudo sobre a permanência e resistência
da comunidade pesqueira. O povoado se caracteriza por ter como limites: a leste, o Oceano
Atlântico; a oeste, o Canal Santa Maria; e o Rio Vaza Barris, a sul e a sudoeste, o que
possibilitou e possibilita a relação dialética entre o homem e a natureza, sendo a pesca -
artesanal a atividade que garante a permanência da comunidade pesqueira e do seu espaço.
Nesse sentido a pesca - artesanal é a atividade humana que media a relação homem/natureza,
ao mesmo tempo em que cria, por meio do trabalho, a identidade dos sujeitos envolvidos
nessa relação.
O Povoado Mosqueiro se caracterizava até algumas décadas atrás, pelo isolamento da capital
Aracaju, onde a comunidade pesqueira dessa forma mantinha hábitos de ruralidade por meio
da relação com o Rio Vaza-Barris e o mar através da pesca, e por meio de pequenos
roçados e coleta de frutas que ajudavam na subsistência. A comercialização dos produtos
retirados dessa relação direta com a natureza se dava no centro da cidade de Aracaju, no
mercado central da cidade, para tanto era necessário caminhar durante um dia inteiro pela
praia acompanhando o regime das marés, ou quando se tinha sorte, pegar carona em um
caminhão que, segundo relatos dos pescadores e marisqueiras mais antigas, se aproximava do
povoado. Essa situação começou a mudar somente na década de oitenta com a construção
da chamada rodovia José Sarney, que possibilitou o acesso de transportes ao povoado e de
toda uma estrutura de urbanização e de especulação imobiliária que hoje se impõe ao
povoado fazendo com que o mesmo seja área de crescente expansão da malha urbana e de
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uma estrutura turística que possibilite o consumo da paisagem.
PESCA ARTESANAL
A pesca artesanal como atividade extrativista, foi uma das primeiras atividades laborativas
exercidas pelo homem, a pesca em sociedades primitivas, ainda que segundo indicações
arqueológicas e etnológicas, ela tenha representado uma importante fonte de alimento
em períodos anteriores ao aparecimento da agricultura (DIEGUES, 1983), de forma que
possibilitou a inserção de novas proteínas na alimentação humana como também desenvolveu
habilidades necessárias a transformação do homem em ser social.
Para Engels (1876) em seu texto Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco
em homem, a necessidade de exercer trabalho estaria diretamente ligada à elaboração de
instrumentos para a mediação da transformação da própria natureza e do próprio homem.
Nesse sentido Engels (1876) mostra que as atividades de caça e pesca está entre as mais
antigas registradas, e logo, tem fundamental importância ao inserirem proteínas animais na
alimentação do homem, o que lhes possibilitou maior força física e o desenvolvimento do
próprio cérebro, necessárias ao longo processo de transformação do macaco em homem. O
que nos permite dizer, que a pesca enquanto atividade que media a relação homem/natureza
se mantém presente desde o momento ontológico da transformação do homem em ser social.
Ao longo dos séculos a atividade pesqueira vem tendo diferenciados papéis nas diferentes
sociedades. Diegues (1983) nos mostra que na Idade Média, a importância da pesca
praticada inicialmente dentro dos feudos e depois expandidas, tinham como função suprir o
consumo crescente dos cristãos, se dando dentro de um incentivo a economia pesqueira que
teve grande importância naquele momento em algumas regiões como a Escandinávia e o
Mediterrâneo. Nesse processo a pesca é também apropriada pelo modo de produção
capitalista, e ainda assim permanece em sua forma artesanal e constitui base de várias
comunidades tradicionais. Para entender o papel da pesca artesanal na mediação dessas
comunidades com a natureza, é de extrema importância caracterizar e definir o que estamos
entendendo como pesca artesanal, partindo aqui do entendimento de Cardoso (2001):
Como pesca artesanal entendo a pesca realizada dentro dos
moldes de pequena produção mercantil, que comporta ainda a
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produção de pescadores-agricultores, segundo o conceito de
Diegues (1983 1988). Trata-se de uma pesca realizada com
tecnologias de baixo poder predatório, levada a cabo por
produtores autônomos, empregando força de trabalho familiar ou
do grupo de vizinhança e cuja produção destina-se ao mercado.
(p. 35)
Na compreensão de que o conceito de pesca artesanal nos ajuda a definir, a moldes de
pesquisa, uma dada realidade, consideramos que essa mesma não necessariamente se encaixa
nos limites do conceito. O movimento da realidade, a dinâmica de reprodução/ampliação do
capital e seus rebatimentos nas especificidades do local/global nos apresentam em cada
comunidade uma resposta própria às dificuldades postas para comunidades pesqueiras
artesanais, e no nosso caso, especificamente no Mosqueiro. Ainda partindo do entendimento
de Cardoso (2001): O pescador é um sujeito social em processo de redefinição de sua
atuação, frente aos usos novos que se impõe aos seus espaços de morada, vida e trabalho.
(p.34). A pesca artesanal que se apresenta no Mosqueiro, nesse momento de pesquisa, nos
permite aqui apresentar a partir da realização de trabalhos de campo e a aplicação de
entrevistas junto aos pescadores e marisqueiras desse povoado, como estes se relacionam
com o lugar, que historicamente é também meio de vida, a partir da atividade que lhes
identifica como pescadores e marisqueiras, assim como a própria vivência enquanto
comunidade que persiste e se podemos dizer, resiste em meio à realidade que se coloca
enquanto possibilidade de vida.
No Povoado Mosqueiro onde se situa a comunidade pesqueira pesquisada que vem nos
ajudar na reflexão desse artigo, é possível fazer uma leitura do que seria esse trabalho, a
pesca artesanal, que satisfaz as necessidades vitais e básicas, de modo que, os pescadores
artesanais do povoado em sua grande maioria pescam para própria subsistência, antes de
tudo pescam para comer de forma que o que sobra é que é posto a comercialização e para a
aquisição de outros produtos.
Quando eu vou pescar eu pego pra comer, nunca gostei de
vender, agora não deixam, mas eu ir pescar a noite.
(Pescador, 79 anos, residente no Povoado
Mosqueiro-Aracaju/SE. Fonte: Trabalho de Campo em 30 de
janeiro de 2010).
Aqui pescam pra comer e pra vender também. Eu tenho
quatro filhos e os quatros se criaram da pesca... (Pescador, 59
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anos, residente no Povoado Mosqueiro. Fonte: Trabalho de
Campo em 30 de janeiro de 2010)
A comunidade pesqueira do Mosqueiro é formada por famílias de pescadores que estão à
beira do Rio Vaza-Barris há décadas, muitos nasceram lá e tem na pesca a possibilidade de
trabalho. O Mosqueiro, sendo um povoado que até a década de 1980 se caracterizava a
partir de famílias pescadoras, segundo os próprios pescadores, hoje tem sofrido mudanças já
que se tornou área de expansão da cidade de Aracaju, onde a especulação imobiliária e o
turismo, seguido de uma urbanização muito rápida, tem imposto mudanças no modo de vida
desses pescadores e marisqueiras.
Onde antes as famílias viviam da pesca e tinha acesso a toda extensão de margem do rio, as
árvores que permitiam coletas de frutas, a espaços de terra que permitiam pequenos roçados,
e mesmo a uma coletividade que se mantinham dentro da própria comunidade. Onde
costumes, vida e trabalho eram compartilhados, hoje se têm um cenário diferenciando:
casarões margeiam e impede o acesso a boa parte da margem do rio Vaza- Barris, o grande
processo de urbanização e especulação imobiliária hoje privatiza os espaços que
correspondem ao Povoado Mosqueiro, o que diminui e mesmo impede a coleta de frutas, o
cultivo de roçados e pequenos animais. E ainda a construção de uma orla destinada ao
turismo ocupa o lugar de embarque e desembarque das canoas dos pescadores. Segundo os
próprios pescadores identificam:
Aqui mudou muito, o Mosqueiro hoje tem mais gente de fora
do que aqui do lugar, o Mosqueiro hoje ta num valor
medonho, aqui pra praia só tem barão, só tem rico, o
Mosqueiro agora ta muito valorizado... Há uns vinte anos
atrás, agente dormia aqui com a porta aberta, hoje em dia é
muito difícil, eu deixo o motorzinho ali trancado, mas eu
durmo assustado. (Pescador, 59 anos, residente no Povoado
Mosqueiro. Fonte: Trabalho de Campo em 30 de janeiro de 2010)
Além disso, alguns pescadores relatam a diminuição do próprio pescado, segundo eles
decorrente de impactos ambientais causados por uma lógica de desenvolvimento que eles não
vêem os lucros e que muito pelo contrário, os afetam na medida em que diminui a
possibilidade de se manterem enquanto pescadores, como levanta alguns pescadores da
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comunidade:
dificuldade é encontrar o peixe, agora com tanta lancha que
têm, ficou tudo difícil, não respeita mais agente, rasga a rede
da gente. Antes era muito diferente, era muito peixe e pouca
gente, tinha mais pescadores. (Pescador, 63 anos, residente no
Povoado Mosqueiro. Fonte:Trabalho de Campo em 30 de janeiro
de 2010).
Antigamente tudo era bom, a fartura tava ai. De uns tempos
pra cá foi diminuindo, diminuindo e ainda hoje tá caindo
muito. Hoje agente vai pescar passa o dia todo pesca 3, 4,
kg, e o melhor mesmo é o caranguejo. De 2001 pra trás tinha
muito caranguejo, depois daquela mortidão, fiz até entrevista
pra o canal 4. (Pescador, 59 anos, residente no Povoado
Mosqueiro. Fonte: Trabalho de Campo em 30 de janeiro de 2010)
A PESCA ARTESANAL COMO MEDIAÇÃO DA RELAÇÃO HOMEM/NATUREZA.
Diante das discussões até aqui apresentadas, referentes ao papel da pesca em determinado
momento como condição de reprodução do próprio homem, e seus diferentes papéis em
diferentes modos de produção, sociedades ou mesmo comunidades, faz-se nosso propósito
agora, compreender como na comunidade pesqueira do Mosqueiro, a pesca artesanal,
enquanto materialização do trabalho media a relação desses pescadores e marisqueiras com a
natureza, ao modo que permite e faz com que essa comunidade se mantenha enquanto
comunidade pesqueira.
Para entender como o pescador e a marisqueira, sujeitos dessa pesquisa, se relacionam com
a natureza, é preciso à compreensão de que o homem dentro do processo histórico onde se
dá a vida em sociedade, antes de tudo é e produz natureza. É por meio desta que o mesmo se
reproduz não somente na esfera biológica, mas enquanto ser social, que produz cultura, que
transforma e se transforma enquanto natureza, e nessa mediação se encontra o trabalho como
atividade necessária à produção e reprodução do próprio homem. Segundo Smith (1988):
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a
natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação,
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media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. (p.71)
Na análise de Lukács (1981), para entender o ser social em sua ontologia, é necessário partir
da leitura do trabalho como mediação da relação homem natureza, trabalho esse que nasce
da necessidade e da luta do homem pela existência. Esse primeiro momento onde o trabalho
tem esse caráter intermediário de mediação da transformação da natureza pelo homem, o que
implica na transformação do próprio homem, caracteriza o momento do salto, o homem que
se torna um ser social. O salto que Lukács (1981) nos traz representa um processo longo
onde não se pode caracterizar o momento exato em que essa transformação acontece, mas
onde se tem claro que o salto representa uma mudança estrutural e qualitativa do ser, do ser
orgânico em ser social, nas palavras de Lukács (1981):
A essência do salto é constituída por esta ruptura com a
continuidade normal do desenvolvimento e não pelo nascimento,
de forma imediata ou gradual, no tempo, da nova forma do ser. (p.
05)
Para Lukács (1981) seria impossível entender o ser a não ser pelo trabalho, já que esse a
partir do momento do salto se torna modelo de toda práxis sociais. Apesar de estarmos
falando aqui do momento primeiro, é imprescindível a compreensão da ontologia do trabalho
para entendermos sua centralidade mesmo nas fases sucessivas a esse momento. A
sociedade, o homem enquanto ser social vai se complexificando a partir de novas
necessidades e com a criação de outras mediações para as realizações dos fins que é antes
construído no processo de consciência.
Se o trabalho é assim o responsável pela transformação do homem inorgânico em ser social
nunca deixará de ser central nas relações sociais justamente por ter esse caráter ontológico, e
pelo fato, segundo Lukács (1981), que é no processo de consciência que se desenvolve
também a partir do trabalho, a própria consciência que se torna autônoma na medida em que
se auto-reproduz a partir do que capta tanto do mundo exterior quanto do interior, fazendo
assim com que o trabalho surja e se desenvolva, determinando seus vários fins.
A discussão de Lukács sobre a ontologia do trabalho nos ajuda a entender como a pesca
media a relação homem/natureza presente no Mosqueiro, e mesmo as outras relações
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colocadas pra essa comunidade. O pescador artesanal por exercer uma atividade extrativista,
está e depende diretamente da natureza para viver, dos ciclos das marés, da lua, da
quantidade de peixes disponíveis, diferentemente de outras atividades que de tantas
mediações alienam o trabalhador da relação com o produto do seu trabalho. O pescador
artesanal do Mosqueiro nessa relação de dependência e de transformação da natureza vai, ele
mesmo, se transformando a cada pescaria, adquirindo novos saberes sobre o mar e
habilidades sobre a pesca, como levanta Vannucci (1999):
Em todo lugar, os ciclos lunares e de marés, regulam grande parte
da periodicidade da vida animal. A vida do pescador também se
regula pelas marés, pela lua e pelas chuvas, num ritmo que
corresponde ao comportamento dos animais e á vida e aos ciclos
sazonais de plantas e animais. (p.123).
Quando os pescadores afirmam que sempre viveram da pesca, que ali é o seu lugar, que a
pesca é o que sabem fazer, isso nos dá uma pista do porque a comunidade pesqueira do
Mosqueiro permanece, e nos mostra que, para quem vive dessa atividade, o trabalho não é
apenas um emprego, um modo de vida, mas representa sua própria vida, seu próprio
reproduzir-se enquanto pescador ou marisqueira.
Eu gosto de pescar mesmo, eu não gosto de tá parado, de
ficar em casa, eu gosto de trabalhar, pode- ser domingo,
feriado, não tem horário, se eu disser vou pescar amanhã eu
vou, se eu disser não vou eu não vou, sou mandado só de
Deus.(Pescador, 59 anos. Fonte: Trabalho de Campo em 30 de
janeiro de 2010)
A pesca nunca se acaba, nasci e me criei no Mosqueiro e vou
morrer aqui mesmo. Aprendi a pescar brincando. (Pescador,
79 anos. Fonte: Trabalho de Campo em 30 de janeiro de 2010)
Parece que eu já arriei o umbigo pescando, porque meu
interior é de água doce eu amanhecia o dia no calão de uma
redinha pescando, tomei conta de casa foi a mesma coisa,
marido morreu mas deixou esse presente pra mim, pescando
também, minhas filhas iam chorando pescando mas eu levava,
tem que ir pescar, todo mundo sabe nadar, se virar num
barco ninguém morre. (Pescadora e Marisqueira, 65 anos.
Fonte: Trabalho de Campo em 19 de agosto de 2009).
Quem mora em região de praia, tá no sangue, é nativo, o
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pescar é um prazer e se torna necessidade também.
(Pescador, ex-presidente da associação de pescadores. Fonte:
Trabalho de Campo em 19 de agosto de 2009).
Até aqui é possível termos a leitura de que a pesca artesanal no Mosqueiro, representa sim a
atividade que media a relação homem/ natureza, onde para esses pescadores e marisqueiras o
rio, o mangue e o mar são condição de sua própria vida. Mas, é preciso ainda atentar para a
pesca no povoado que há algumas décadas representava o trabalho de toda uma
comunidade, que mantinha laços a partir do trabalho e dessa forma o modo de vida em
comum, numa relação direta com a natureza, hoje não está mais garantida por conta de todas
as dificuldades já apresentadas, postas para a pesca artesanal. Diante disso, grande parte dos
pescadores, assim como as mulheres e os mais jovens, acaba por procurar outras atividades
para complementar à renda, no caso das mulheres muitas vezes como diaristas em casas de
família, ou no caso dos mais jovens como único trabalho já que grande parte não tem mais
interesse em viver da pesca.
PERMANÊNCIA/RESISTÊNCIA A PARTIR DA PESCA.
Dizer que não há garantia não é dizer que não há resistência, muitos apesar das dificuldades
se mantém na pesca artesanal, no caso das mulheres marisqueiras estas continuam catando
caranguejos e outros mariscos, pois é essa atividade que lhes permite viver numa relação
cotidiana com o local, o rio, o mar. Na comunidade pesqueira do Mosqueiro, a pesca foi e
ainda continua sendo o trabalho que tem caráter central para quem se identifica como
pescador, mesmo que outras atividades sejam necessárias para se manterem enquanto
pescadores e pescadoras e não só, mas numa relação de vizinhança ainda muito forte como
afirma Cardoso (2001) em outro momento.
E se há alguma dúvida sobre a centralidade do trabalho nas relações sociais, fazendo uma
leitura do lugar Mosqueiro, é possível sem muitas dificuldades entender que esses pescadores,
vivem do seu trabalho, permanecem e resistem todos os dias para continuar vivendo da
pesca.
A pesca que desde os primeiros momentos fez e faz parte das relações humanas, que passou
por outros modos de produção, e hoje apropriada pelo sistema capitalista, como se
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apresenta, por exemplo, a pesca industrial de forma indiscriminada na captura de pescados
para abastecer os mercados, ainda sim a pesca artesanal mesmo estando inserida nesse
processo global de reprodução ampliada do capital, representa o trabalho que define o modo
de vida e a possibilidade de permanência e resistência da comunidade pesqueira do Povoado
Mosqueiro dentro de uma lógica ainda diferenciada do modo de produção posto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ENGELS, F. “Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem”. Em:
Antunes, R (Org.). A dialética do trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
CARDOSO, Eduardo Schiavone. Pescadores artesanais: NATUREZA,
TERRITÓRIO, MOVIMENTO SOCIAL. Programa de Pós-Graduação em Geografia
física/USP, 2001. Tese (Doutorado).
RAMALHO, Cristiano W. Noberto. Embarcadiços do Encantamento: Trabalho como
Arte, Estética e Liberdade na Pesca Artesanal de Suape, PE. Instituto de Filosofias e
Ciências Humanas/UNICAMP, 2007. Tese (Doutorado).
DÍEGUES, Antônio Carlos. Pescadores, camponeses e trabalhadores do mar. São
Paulo: Àtica, 1983.
VANUCCI, Marta. Os manguezais e nóis. São Paulo: EDUSP, 2003.
SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: natureza, capital e a produção de espaço. Trad.
Eduardo de Almeida Navarro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.
LUKÁCS, Gyorgy. O Trabalho. Em: Perl’ Ontologia Dell’ Essere Sociale. Roma: Riuniti
Tradução: Tonet, Ivo.
Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3

Disponível em: www.agb.org.br/evento/download.php?idTrabalho=3986

domingo, 31 de outubro de 2010

Chalés. Chalés de Mosqueiro uma história que o tempo está apagando.

Chalé Briconly antigo Chalé IBI
 Praia do Porto Arthur
Imagem: JCSOliveira


Chalés. Chalés de Mosqueiro uma história que o tempo está apagando.
Nossas autoridades não pensam como nós sobre essa parte da história. E, como venho afirmando, somos os maiores culpados de permitir que isso aconteça. A história é nossa. É uma herança que a especulação está tomando conta. Pessoas interessas em criar uma linha turística, estão permitindo o abandono dos prédios da orla das praias do Porto Arthur, Chapeú Virado e Farol e, das orlas das praias da Baia do Sol, Paraído e Marahú.
Tudo começou por volta do início do ano 2000, quando foi criada a intenção de transformar mosqueiro num paraíso de imóveis com mais de 10 andares. Isso é verdade! A partir dessa idéia, empresários de outros estados, estão avaliando areas nobres da ilha para a construção dos prédios. Isso por culpa de empresas locais. Como já citei, as areas apresentam as melhores condições para isso. São recantos certos para esse novo paraíso: dos prédios de mais de 10 andares, que venham atender a idéia de implantar o turismo local. O tão e sonhando turismo que dizem mosqueiro apresentar e como a sua maior fonte de renda, se o mesmo for emancipado. Essa é a idéia principal e de interesse de muitos empresários, após a emancipação. E pergunto quem é contra e quem é a favor desse processo? E surge uma nova interrogação, quem é contra e quem é a favor da especulação imobiliária na ilha? 
Aparentemente isso é quase impossível mas, na verdade, já começou há anos, muitos é que ainda não atentaram. O primeiro arranha-céu já existe no chapéu virado e foi construído, não por fatalidade, mas por uma falha da lei e por autorização. Nada pode ser feito e ele está por lá.Quem ousa destruir?
Então, voltando ao assunto,como disse, Augusto Meira Filho, em seu livro Mosqueiro, Ilhas e Vilas "O Mosqueiro tornar-se-ia, durante longo período, abrigo de raras personalidades estrangeiras que procuram, ali, respirtar melhor e deleitar-se com as belezas do lugar". E assim continua, "Suas praias lindas não divisam classes, não marcam prioridades, não estabelecem privilégios. Mosqueiro é um balneário popular, democrático, onde todo mundo se sente livre e igual". Essa foi a melhor parte da história e que trouxe os chalés para a orla das praias. O local ideal para suas construções. O local que, hoje, especula-se demolir dando lugar a uma nova etapa.
Precicamos refletir sobre tudo isso, pois não  é apenas um ou outro prédio que está abandonado ou sendo demolido, mas diversos. Caminhando do Farol ao Ariramba é possível visualizar essa nova realidade. Uma realidade que nos põe em conflito com o passado, com os herdeiros, com a tradição dessas famílias e com as nossas autoridades,pelo descaso histórico, além, claro, dos especuladores, que de alguma forma, estão estimulando o abandono e de olho no futuro, sem importar-se com essa parte que tanto nos interessa manter viva. Ou nos interessa manter apenas a imagens que circulam na internet, mundo afora?
Acredito, fielmente, como defensor das boas idéias para um balneário melhor, que mosqueiro precisa da minha, da sua, da nossa maior atenção, pois, hoje, somos poucos mosqueirenses. Mosqueirenses, mesmo, que amam esse local e lutam por um mundo melhor.
Contribuindo com seu blog
Faça inclusão das imagens dos prédios que estão sendo destruídos.
Meu blog:
http://chalesdemosqueiro.blogspot.com

Comentários ao blog Mosqueirando

domingo, 24 de outubro de 2010

BAIRRO DO SUCURIJUQUARA

SUCURIJUQUARA

Significado: Deve sua denominação a área cercada por igarapé de mesmo nome que significa morada de Sucuriju – nome de características Tupi-Guajajara.

Legislação: Segundo a Lei 7.806, de 30 de julho de 1996, o bairro compreende a área limitada pela poligonal que tem inicio na confluência da Estrada da Baía do Sol com o Igarapé Jacarequara, segue a jusante até a sua foz no Igarapé Sucurijuquara, segue por este a montante até encontrar o limite da lateral direita do loteamento Olinda III, dobra à esquerda e segue por este até seu travessão, dobra à direita e segue por este e pelo travessão dos loteamentos Olinda II e Olinda I, até encontrar a lateral esquerda deste, flete a direita e segue por esta até retomar o curso do lgarapé Sucurijuquara, segue por este a montante até o ponto de coordenadas 9.878.070mN e 791 560 mE, situado no alinhamento da via projetada, dobra à esquerda e segue por este até o ponto de coordenadas 9 877 540) mN e 791 360 mE, situado na projeção de um caminho cxistente sem denominação, segue nesta direção até encontrar o ponto de coordenadas 9878 180 mN e 789 610 mE, flete à direita e segue por urna linha reta e paralela a Rua do DMER até o ponto de coordenadas 9 878 320 rnN e 789 740 mE, localizado na nascente do Igarapé Jacarequara, seguindo por este até o início da poligonal.


SUCURIJUQUARA É MOSQUEIRO É ALVINA

É uma terra abençoada, em vida foi Alvina que cuidou.
Nenhuma moradia era cercada, e ninguém ultrapassou.
Era um Quilombo altaneiro, defendido pela população.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Ela jovem fundou o local, e foi formando a comunidade.
De respeitabilidade total, a todos ensinava humanidade.
O povo ficou hospitaleiro, recebia com toda Educação.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Contam que corria pela mata, pela praia e atingia o Céu.
Amiga, responsável e cordata, embelezar era o seu papel.
Cuidava do povo Guerreiro, e da doce terra com paixão.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Ela que escolheu ali, porque tinhas razões de História.
Foi um lugar de reunir, os que fugiam da luta inglória.
Era um unir verdadeiro, Índio e Negro eram como irmão.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Com tudo ela foi cuidadosa, e fazia cada um aprender.
Tinha erva que era venenosa, tinha de saber proceder.
No comportamento obreiro, pra merecer a comunhão.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Era Santa Mulher rezadeira, que curava no interceder.
De todos tinha sido a Parteira, e fez a cada um nascer.
Tinha o Moral sobranceiro, e todos lhe tinham devoção.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Este solo é um santo lugar, pois sempre foi bom de viver.
É sagrado pra gente honrar, pra gente fazer por merecer.
Cupuaçu, bacuri e jambeiro, têm muito fruto e satisfação.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Gente experiente de navegar, e que tem conhecimento.
Gente amante do rio e do mar, transbordando sentimento.
Tem um povo bom canoeiro, pescador que tem vocação.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Povo da Justiça e do Direito, gente que é de muito amor.
Da toda consideração e respeito, do espírito Trabalhador.
Dali foi gente pro Brasil inteiro, Heróis para todo rincão.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Terra e História são pra preservar, ali morou o Ancestral.
Pra gente saber e se elevar, pra nos mover grande ideal.
Pois nosso povo é Guerreiro, lutou muito pela libertação.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Vamos terra e gente louvar, na benção da Avó Madrinha.
E canção de amor cantar, pois cada Mulher é uma Rainha.
Cada um é um Companheiro, a irmandade é de dar a mão.
Sucurijuquara é Mosqueiro, é de um povo de imensidão.

Azuir Filho e Turmas: Do Social da Unicamp e, de Amigos,
de: Rocha Miranda, Rio, RJ e, de Mosqueiro, Belém, PA.

Poesia de Homenagem à linda Terra de Mosqueiro de Belém do Pará, a Sucurijuquara de Mosqueiro, pelo seu encanto e História, de concentrar o Remanescente Fugido que faziam da Ilha o Refúgio da Liberdade com Tupinambás Murubiras, e a Vó Alvina que quando jovem e cheia de disposição, corria livre por toda esta Ilha do Amor e escolhei ali para se fixar, por amor a esta memória, que sua mãe lhe passava oralmente e que ela, por sua vez, depois de assumir o lugar da Mãe como Parteira e Rezadeira. contava aos mais jovens, como a maior herança que lhes estava passando, porque eram Valores de honra, liberdade e Amor, os maiores tesouros para junto com a terra, todos terem pelo que viver em Paz.
Uma Linda História de Uma Terra e de um Povo cheio de amor, que Vó Alvina teve papel de destaque educando sua gente para preservarem os valores de humanidade como únicos capazes de fazerem os seres humanos serem felizes na vida.
Fonte: http://www.overmundo.com.br/banco/sucurijuquara-e-mosqueiro-e-alvina

sábado, 14 de agosto de 2010

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Canto do Sabiá
Foto: JCSOliveira

Mosqueiro

Flor da águas foi essa expressão que o geógrafo e estudioso da Amazônia, Eidorfe Moreira, encontrou para denominar Belém, Capital do Estado do Pará e primeira cidade a ser fundada na Amazônia. Para ele não é exagero dizer que nenhuma outra cidade do Brasil se mostra tão portentosa e interessante sob o ponto de vista hidrográfico. A água figura aí como peça fisiográfica e como elemento cênico, como moldura e como agente modelador. Podemos dizer que é um privilégio uma cidade possuir em seu território tantas ilhas, baías, rios, igarapés e praias. E é certamente o Arquipélago de Mosqueiro, o maior de todos, o que mais expressa o caráter de uma cidade constantemente penetrada e fecundada pelas águas amazônicas. Localizado no golfo guajarino, integrante de um maior denominado golfão marajoara, o arquipélago do Mosqueiro é composto por trinta e cinco ilhas, segundo estudos da Companhia de Desenvolvimento Metropolitano de Belém (CODEM). Seu território possui uma área que corresponde à região continental de Belém, cerca de 220 km², o equivalente a 27 mil campos de futebol. Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sua população residente gira em torno de 30.000 hab. Por ser tratar de importante balneário, em períodos de férias escolares sua população chega a alcançar 400.000 pessoas. A história de Mosqueiro se confunde com a história da colonização da Amazônia, particularmente do Estado do Pará e de sua capital. É a história de um Arquipélago singular, localizado na fantástica foz do rio Amazonas que vem encantando os viajantes durante séculos.

A verificação de mapas do século XVII, produzidos pelos primeiros navegadores europeus a visitar a região, aponta para dois aspectos interessantes do ponto de vista histórico para o Arquipélago do Mosqueiro. O primeiro é a denominação de Ilha de Santo Antônio e o segundo é o fato da região ser conhecida como a Província dos Tupinambás. Habitantes do estuário amazônico, os tupinambás estavam na região à cerca de 12.000 anos e constituíram uma civilização e uma cultura intimamente ligadas à natureza. A partir disso elaboraram tecnologias, teologias, sociedades que nasceram e experimentaram um modo de vida fortemente relacionado com a floresta, os rios, os minerais e as espécies da fauna e da flora. Em janeiro de 1500, o navegador espanhol Vicente lãnes Pinzón chega à costa norte brasileira e depara-se em meio a um grande mar de águas doces, turvas e esbranquiçadas, região que mais tarde ele irá denomina de "Santa Maria de la Mar Dulce". Encantado pelo formoso delta, Pinzón desembarcou na praia de uma aprazível ilha onde permaneceu o tempo necessário para continuar a viagem, assim, foi em uma ilha amazônica onde, pela primeira vez, um europeu colocou os pés em solo brasileiro. Fazendo parte deste maravilhoso arquipélago e guardando as suas belas praias com ondas de água doce, estava uma ilha que, futuramente, receberá o nome de Mosqueiro.

Em 1545, o explorador espanhol Francisco Orelhana, que já havia passado pelo delta do grande rio em 1542 e espalhado pelo velho mundo a notícia de haver encontrado guerreiras para as quais denominou de Amazonas, retorna à região. Partindo de Sevilha, Orelhana avista a terra reconhecendo o cabo de São Roque, percorrendo mais umas cem léguas, afastados doze da terra, os navegantes encontraram água doce, era o sinal que seu comandante buscava para saber que havia retornado ao delta do rio das amazonas. No da seguinte, chegaram a uma baía localizada entre duas ilhas abundantes de frutas e pescado. O historiador João Lúcio D'Azevedo, comentando este episódio, escreve "... no dia seguinte ao que penetraram no rio, deram fundo entre duas ilhas bastante povoadas: pode-se se supor fosse a baía do Sol, perto das lhas do Colares e Mosqueiro. Na véspera, quase se perdem nos baixos: devia ser os de Bragança. Tudo isto a simples inspeção do mapa nos confirma". D'Azevedo também comenta, baseado no relato do frei Gaspar de Carvajal, que este dia era consagrado à Nossa Senhora do Ó, aquela que mais tarde tornar-se-ia padroeira de Mosqueiro. Partindo da baía de São Marcos, no dia 25 de dezembro de 1615, a expedição de Caldeira Castelo Branco tinha o propósito de avançar para o norte o processo Colonizador. Pós alguns dias de viagem, a expedição chega defronte da entrada da atual cidade da Vigia. Dando prosseguimento a sua viagem, os navegadores atravessam a baía do Sol e a ilha de mesmo nome, hoje conhecida como ilha de Colares. Em relato feito para o rei D. João V pelo funcionário da Coroa Bernardo Pereira Berredo, neste momento, deparam-se com uma região considerada o lugar mais apropriado para a conquista e povoação e "um dos mais agradáveis lugares desta Costa para fundar uma cidade" segundo o padre José de Morais, que acrescenta em seguida" a não serem seus mares tão inquietos que faziam dificultoso o desembarque das naus do reino e embarcações da terra, por ser açoutada toda aquela Costa das grandes maresias da tarde, algumas vezes com trovoadas". No dia seguinte, Caldeira subiu um pouco mais, assentando a nova povoação em uma península à direita do rio Guamá. Estava fundada Belém, em 12 de janeiro de 1616. A falta de precisão dos documentos relativos à expedição de Caldeira Castelo Branco não nos permite ter convicção de que o lugar ao qual se refere Berredo é Mosqueiro, todavia a descrição que o padre José de Morais faz da região, guarda enorme semelhança com a enseada da ilha voltada para a baía do Sol. Nos primeiros séculos de colonização portuguesa, o litoral era responsável pelo abastecimento do núcleo colonizador. Não demorou muito para os jesuítas instalarem na ilha de Mosqueiro a Missão Myribira que, juntamente com a Missão Topinambazes, na ilha de Colares e outras do mesmo gênero constituíam as Aldeias de Baixo. A estratégia desenvolvida pelos jesuítas foi fundamental para o sucesso do aparato colonizador em seus momentos iniciais. Administravam recursos que serviam para o pagamento de dotes para aqueles colonos que casassem com nativas da região. Através de suas aldeias garantiam a mão de obra necessária para a construção do núcleo urbano, bem como para a exploração das drogas do sertão. Ao ser nomeado pelo rei de Portugal, D. José I, como Secretário de Negócios Estrangeiros e de Guerra, o Marquês de Pombal inicia um processo de mudanças na política do governo português que resultam em grandes transformações na região. Em 1751, cria o Estado do Grão-Pará e Maranhão e transfere a sede do governo para Belém. Seu meio irmão Francisco Xavier Mendonça Furtado é nomeado governador. Furtado estabelece, em 1757, normas que instituíam o cargo de diretor de aldeia, nomeado pelo governador. Contrários às novas diretrizes do governo, os jesuítas são expulsos do Pará por ordem do Marquês de Pombal, em 1759.

No século XVIII, muitas pessoas requereram enormes áreas de terras em Mosqueiro, as léguas de "sesmarias" como era chamado o documento que doava as terras pertencentes à Província Imperial. Entre estes beneficiados estava o posseiro Padre Antônio Nunes da Silva a quem coube a doação das terras da Baía do Sol, em 06 de dezembro de 1746. Contando com a mão de obra de escravos africanos, seus herdeiros construíram sítios agrícolas como o Sítio Conceição, ainda preservado, e Sítio Santana cujas ruínas de sua casa grande encontra-se na propriedade do Hotel Paraíso. Na primeira metade do século XIX, o Pará vivenciou a revolta dos Cabanos, assim nomeada por fazer referência às habitações daqueles que formavam os maiores contingentes que integraram o movimento. Faziam parte do movimento camadas sociais desfavorecidas como caboclos, índios destribalizados e os negros libertos que moravam nas ilhas e regiões próximas a Belém, além de alguns fazendeiros e comerciantes inconformados com a política do presidente da província. No litoral de Mosqueiro, importante reduto Cabano, havia dois pontos artilhados; o da Vila, instalado nas barrancas da praia do Bispo, e o do Chapéu Virado, com artilharia montada nos penedos que ali existiam. Eram desses pontos que os Cabanos atingiam os navios que conduziam tropas, mantimentos, armas, munições e fardamento para o marechal Manuel Jorge Rodrigues na ilha de Tatuoca e para as tropas de Pernambuco que haviam aportado na ilha de Cotijuba. A resistência, instalada na ilha do Mosqueiro, enfrentou as forças legalistas, em 21 de janeiro de 1836, em plena praia do Chapéu Virado. Após horas de combate, vários mortos e feridos de ambos os lados e sem munição, os Cabanos saíram em retirada pelas matas e rios da região. Nas décadas seguintes à Cabanagem, Mosqueiro continuava com sítios agrícolas, concentrados em sua maioria no norte do Arquipélago, e um pequeno vilarejo ao sudoeste com suas casas localizadas, entre arvoredos, na beira da baía. Sua vinculação à Freguesia de Benfica na condição de Vila, fez com que este vilarejo viesse a dar origem ao bairro conhecido como Vila do Mosqueiro. Quando vice-presidente da Província do Pará, o Cônego Manoel José de Siqueira Mendes Sancionou a lei da Assembléia Provincial 563, de 10 de outubro de 1868, criando a Freguesia de Mosqueiro e extinguindo a de Joanes. Em seu artigo 1º lemos: "Fica criada na povoação de Mosqueiro uma freguesia sob a invocação de Nossa Senhora do Ó...". A igreja que havia na povoação e pertencia à Irmandade de Nossa Senhora do Ó foi indicada para matriz provisória e mandada avaliar para a devida indenização à irmandade, promovendo-se a sua conclusão pelo governo da Província, o mesmo ocorrendo com a obra do cemitério que ficava ao lado da capela e pertencia à mesma irmandade. D. Macedo era então o bispo do Pará e nessa qualidade designou em portaria de 02 de abril de 1869, para vigário da nova freguesia, o padre de cinqüenta e um anos, Manoel Antônio Rayol, que a aceitou e nela se radicou. O Século XIX chegava às suas últimas décadas, Mosqueiro deixaria de ser Freguesia e passaria para a condição de Vila de Belém em 06 d julho de 1895. A região começava a experimentar um novo ciclo econômico que traria grandes transformações. Para Mosqueiro estavam reservadas muitas surpresas.

A origem do nome "Mosqueiro"

A influência da cultura tupinambá deixou suas marcas em Mosqueiro, a começar pelo próprio nome. Alguns estudiosos, entre eles Meira Filho, atribuem o termo Mosqueiro a um processo de corruptela do termo Moquém ou Moqueio. Com o objetivo de conservar a carne da caça ou do pescado, os tupinambás utilizam o moqueio, técnica tradicional onde, sobre uma grelha feita com pau de tucumã e envolto na folha do guarumã, a carne fica exposta a um fumeiro feito com a lenha do muruciceiro ou do maraximbé. Nos primeiros séculos de colonização portuguesa, o litoral era responsável pelo abastecimento da cidade de Belém. Os tupinambás submissos, também conhecidos como tapuias eram encarregados desta tarefa. Como não possuíam a cultura do sal e não dispunham de tecnologias como a refrigeração, as praias de Mosqueiro, caminho obrigatório para quem chega em Belém, foram palco da prática intensiva do moqueio. Os colonizadores não conheciam o termo Moqueio, mas conheciam Mosqueiro, nome dado a algumas localidades de Portugal e Espanha, logo concluíram era a ponta dos Moqueios, a ponta da Musqueira, a ponta do Mosqueiro.

Um pedaço da Europa na Amazônia

Construídos para serem recantos paradisíacos de férias, os casarões Mosqueirenses são um marco na história paraense.

Na passagem do século XIX para o século XX a Europa seguia frenética o curso do desenvolvimento industrial. Em Belém do Pará, os barões da borracha pareciam respirar os mesmos ares europeus, proporcionando à capital paraense uma época de luxo, ostentação e busca pela modernidade. Outros centros urbanos da Amazônia também viveram esses períodos de progresso nos anos de apogeu da borracha, entre1880 e 1912. Mas, no Pará essa euforia trouxe desdobramentos para a ilha de Mosqueiro, conhecida, até então, por auxiliar no abastecimento de Belém. Os impactos em Mosqueiro chegaram nas bagagens dos europeus. Eles aportaram na Amazônia para trabalhar na urbanização de Belém e de outras capitais da região. De acordo com o historiador Augusto Meira Filho, autor do livro "Mosqueiro Ilhas e Vilas", esses estrangeiros descobriram rara beleza no arquipélago. O clima já exótico da região foi acentuado pela visão das praias de água doce. A ilha tornou-se o local predileto para os Lochard, os Ponted, os Smith, os Upton, os Kaulfuss, os Arouch, além de outras famílias. No princípio, elas utilizavam embarcações particulares para chegar à ilha e, posteriormente, com a implantação de uma linha regular de transporte fluvial, no começo do século XX, construíram residências para passarem os finais de semana. Famílias abastadas de Belém logo aderiram ao movimento.

Casarões – Nesse período, alguns proprietários de residências na orla construíram trapiches particulares. Assim surgiu a denominação "Porto-chalé", como o "Porto Artur" e "Porto Franco". As encomendas chegavam com mais conforto às residências. Os próprios pescadores da ilha iam vender peixes na porta das casas, antes mesmo de seguir para o mercado.


Para o professor da Universidade Federal do Pará – UFPA e arquiteto, Milton Monte, estudioso da arquitetura daquela região e apaixonado confesso pela ilha, os casarões da orla mosqueirense representam raros exemplares arquitetônicos. Os prédios foram construídos mesclando estilos europeus com a realidade climática local, tendo porões habitáveis ou não, feitos em função da salubridade e ventilação. Monte, que apresentou como trabalho de conclusão de curso em arquitetura uma tese sobre a edificação dessas casas em Mosqueiro, lembra que a construção de casarões por europeus aconteceu em vários pontos da Amazônia. Em Icoaraci, também distrito de Belém, há construções similares, como o chalé da família Cardoso. Milton, acreano e autor do projeto do pórtico da entrada de Mosqueiro, conta que, no estado onde nasceu, é possível identifica-las, mas em menos escala. Entretanto, para ele, isso não minimiza a importância histórica e arquitetônica das edificações na ilha. Apesar de terem sido construídas em outros pontos da região, a ilha é o local com maior número de casarões e, por isso, apresenta maior diversificação. Dessa forma, a arquitetura se torna singular entre estilos tão distintos. O chalé Canto do Sabiá, por exemplo, recebeu influência da arquitetura eclética alemã. Em outros casos, é mais difícil fazer essa identificação de estilos, como o chalé Porto Arthur. Apesar desse movimento de veraneio ter aumentado expressivamente com a chegada dos europeus à ilha, há quem defenda que na primeira metade do século XIX, o Pará apresentava propriedades rurais com características observadas nos casarões de Mosqueiro.

*Eduardo Brandão é escritor, pesquisador e professor da UFPA. Dedica-se há mais de 10 anos à pesquisa de ilhas próximas à Belém. A fonte deste texto é a edição inaugural da revista "Ilhas Amazônicas"/Janeiro 2006.

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http://www.istoeamazonia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=107&Itemid=1